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sábado, 31 de maio de 2008

Vinicius




"(...)Rio que sou em busca do mar que me apavora(...)"

Vinicius de Morais, excerto do poema "Vida Vivida"



Porque hoje é Sábado - 3ª Parte

"(...) Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado."

Vinicius de Moraes, excerto do poema "Dia da criação"

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Combustíveis e hipócritas

Muito se fala dos aumentos dos combustíveis. Comentadores, mais ou menos "encartados", adiantam explicações mais ou menos desprendidas.
São várias as opiniões que vão surgindo sobre a causa do problema, já que as consequências são claras - desastre para a economia das famílias mais desfavorecidas...
Do conjunto de opiniões, dos comentadores encartados que nas Tv's balbuciam explicações, surgem , no essencial, estas:
- Aumento do barril do petróleo nos mercados internacionais devido à especulação...
- Aproveitamento das gasolineiras da situação internacional para inflacionar exageradamente o preço dos combustíveis com o objectivo de aumentarem os lucros!

No entretanto, vem um tal Sarkozy dizer para que se baixe os impostos sobre os combustíveis, apoiado de imediato pelo Sr. Portas de cá! (há que garantir que as gasolineiras não baixam as suas vendas!)

De que se queixam os comentadores e os Sarkozy's/Portas? Não foram eles que quiseram a liberalização do mercado? A livre concorrência?
Não foram eles que defenderam a privatização da Petrogal?
Então aí têm!
Quiseram dar aos privados o domínio, a decisão e o controle do mercado (e do preço) de um produto essencial para a economia e com influência sobre todas as actividades do País. Agora deixem-se de desculpas!
A forma que o País tem para ultrapassar o problema é ser o Estado a ter nas suas mãos o controle e a decisão sobre o mercado dos combustíveis... Mas isso comentadores das Tv's Sarkozys e portas não querem!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Fogo sobre a Terra"

"A gente às vezes tem vontade de ser
Um rio cheio pra poder transbordar
Uma explosão capaz de tudo romper
Um vendaval capaz de tudo arrasar

Mas outras vezes tem vontade de ter
Um canto escuro onde poder se ocultar
Um labirinto onde poder se perder
E onde poder fazer o tempo parar

Oh, dor de saber que na vida
É melhor de saída
Ser um bom perdedor
Amor, minha fonte perdida
Vem curar a ferida
De mais um sonhador"

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 28 de maio de 2008

E o Operário disse: NÃO!
















"(...) Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ves
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não! (...)"

Vinicius de Moraes, Excerto de "O Operário em construção"

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terça-feira, 27 de maio de 2008

O Belo e o grotesco












Na imagem do fogo existe qualquer coisa de belo!
Difícil é dizer, em concreto, onde está a beleza...
Será a mistura de cores? Azul, Verde, Laranja, Vermelho, Amarelo...
Será a luz que produz? Que até à mais escura noite dá clareza

Não sei. Só sei que no fogo existe, também, o grotesco.
Deixa em cinzas tudo aquilo em que toca,
Espalha a morte e a destruição e cria um cenário dantesco...
Mas é, também, das cinzas que a vida recomeça!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

"Pela luz dos olhos teus"








"Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais lararará

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar"

Tom Jobim

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"Ausência"







"Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

Vinicius de Moraes

domingo, 25 de maio de 2008

Rugas
















Vejo o rosto coberto de rugas
E ponho-me a imaginar
Quantas imensas lutas
Este rosto teve de enfrentar,

As enormes angústias
Que foi capaz de suportar,
As belas melodias
Que conseguiu entoar.

Terão sido muitos os sorrisos
Com que conseguiu encantar
Todos os homens, mais ou menos sérios,
Com que teve de lidar.

Os gritos que terá dado a parir a sua filha amada,
Certamente, ajudaram a contribuir
Para alguma das rugas
Na sua cara marcada

Invejo essas rugas
E o imenso saber
Que cada uma delas,
Certamente, deve ter.

sábado, 24 de maio de 2008

Porque hoje é Sábado - 2ª Parte

"(...)Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é Sábado(...)"

Vinicius de Morais - Excerto do Poema "Dia da Criação"

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Viagem de Comboio
















Faço esta viagem de comboio
Enquanto penso na minha vida
Que não tem nenhum mérito!
Tenho mais do que o essencial para vivê-la.
Roupa para vestir...
Comida para comer...
Saúde para dar e vender...
Carro para passear...
Computador e internet para navegar...
Telemóvel para telefonar...
Amigos com quem conviver...
E muitas outras coisas sem delas necessitar

Mas olho pela janela do comboio
E vejo um homem no campo com uma enxada
Algo, neste visão, me deixa irritado.
Penso na enxada do homem e queria tê-la
Sinto inveja do homem e do seu viver
Queria a terra revolver...
Cultivar o que vou comer...
Cavar a terra até as mãos sangrar...
Tudo o que puder semear...
Toda a terra cultivada regar...
E, certamente me sentiria viver.
Confesso começar a ter ódio
Por tudo aquilo que me afasta da vida!
.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

"Procura-se um amigo"

"Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Aquele Olhar!





Não consigo esquecer aquele olhar!
Não sei explicar qual o motivo,
Possivelmente pelo que me fez imaginar.
Mas, não sei se foi só um sonho.

Sempre que me lembro desse olhar,
Cresce em mim uma angústia
Por já não acreditar
Que esse olhar tivesse inocência...

Recordo a concretização
Desse indescritível olhar,
O que me deixa a questão
Do porquê?... De não se voltar a realizar

Sempre irei lembrar esse olhar.
Sempre irei lembrar o realizar
De tudo o que nesse olhar
Me permitiu sonhar

Espero rever esse olhar
Nem que seja num momento fugaz,
Porque, quando isso se concretizar,
Ficarei em paz!

terça-feira, 20 de maio de 2008

O Lambe-botas

Foi, hoje de manhã, ao ouvir Luís Delgado numa rádio, que descobri qual o problema estrutural do País. Certamente causa de insónias para todos nós!!
Não!... Não é o enorme desemprego que afecta o País e centenas de milhares de famílias!
Não!... Também não é o brutal aumento do custo de vida!
Nem sequer são os baixos salários!
Nem o facto (divulgado hoje pelo Conselho Nacional de Educação) de 3 em cada 10 crianças do primeiro ciclo passarem fome!
Nada disto!
O verdadeiro "problema estrutural" e preocupante do País é, segundo o Exmo. comentador lambe-botas Luís Delgado, o tempo que leva em Portugal "o conseguir dar falência de uma empresa". Nem mais!

Haja paciência para aturar este pseudo-comentador, lambe-botas e bajulador dos patrões.

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segunda-feira, 19 de maio de 2008

"Aquarela"













"Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul

Vou com ela viajando Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando,
é tanto céu e mar num beijo azul

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo
e se a gente quiser ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro
e ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar

Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida,
depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá)
e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá)
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (e descolorirá)"

Vinicius de Moraes/Toquinho

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domingo, 18 de maio de 2008

Queria ser como a gota de água













Queria ser como a gota de água,
que cai daquela torneira,
poder deslizar pela superfície fria
da pedra.

Como a gota, queria unir-me
a outras gotas e ser a parte de um todo
de forma a que não fosse possível distinguir-me.
Queria ser apenas uma parte do todo!

Com as outras correr
suavemente num pequeno regato,
juntarmo-nos a um rio e correr
mais depressa num vale encantado.

Entre todas partilhar
a sujidade, enquanto atravessamos a cidade,
pois não é possível observar
uma gota limpa entre outras com sujidade.

Todas unidas festejar
o encontro com as nossas irmãs
que estão no mar
e com elas partilhar o sal que torna as pessoas sãs!

Todas nós, na praia a brincar,
daríamos cambalhotas colectivas
para as crianças encantar
com a beleza das ondas!

Queria que o sol abrasador
me fizesse evaporar
e pelos efeitos do calor
poderia voar.

Que leveza iria sentir
ao juntar-me às outras
no céu, e como iria sorrir
pela nuvem que somos e as suas formas.

Que felicidade que teria
por voltar a transformar-me em gota
que voltaria
a querer ser, apenas, uma gota!

sábado, 17 de maio de 2008

Porque hoje é sabado - 1ª Parte

"(...)Neste
momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado(...)"

Vinicius de Moraes - Excerto do poema "Dia da Criação"

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Estou a sonhar...


















Observo o mar do cimo da falésia,
Fecho os olhos enquanto sinto a suave brisa,
O perfume e a música do mar invadem os meus sentidos.
Imagino os meus pés a separarem-se da falésia
E o meu corpo a cortar a brisa,
Sobrevoo acima do mar e uma ave aponta-me os olhos.

Não parece espantada com o meu voar
Mas não me parece que se queira aproximar
Talvez porque procure o que comer
Como logo a seguir percebo no seu mergulhar.
Regressa, em seguida, com um peixe que se tenta soltar
Apesar do seu destino ser morrer!

Decido descer até ao mar e mergulhar,
Sustenho a respiração enquanto fico a observar
Um cardume de coloridos peixes num estranho bailar!
Repentinamente, lembro-me que preciso de respirar!
Regresso ao céu para sobre o mar voar,
Mas o som de uma criança lembra-me que estou a sonhar...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

"Valsinha"

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar,
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar,
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos,
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais,
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"


Chico Buarque

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quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Rosa de Hiroxima"





"Pensem nas crianças
Mudas, telepáticas...
Pensem nas meninas
Cegas, inexatas...
Pensem nas mulheres
Rotas, alteradas...
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas...
Mas, oh! Não se esqueçam
Da rosa, da rosa,
Da rosa de Hiroxima,
A rosa hereditária.
A rosa radioativa,
Estúpida e inválida.
A rosa com cirrose,
A anti-rosa atômica.
Sem cor, sem perfume,
Sem rosa, sem nada."

Vinicius de Moraes/Ney Matogrosso

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sábado, 10 de maio de 2008

"Gente Humilde"

" Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar,
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar,
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio,
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar,
E, aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar.

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar,
Pela varanda
Flores tristes e baldias,
Como a alegria
Que não tem onde encostar,
E aí me dá uma tristeza
No meu peito,
Feito um despeito,
De eu não ter como lutar.
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde,
Que vontade de chorar"


Vinicius de Moraes/Chico Buarque

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quinta-feira, 8 de maio de 2008

A Moção de censura e as amizades!

Hoje, o Governo PS/Sócrates enfrentou uma moção de censura na Assembleia da República, o resultado foi o natural e esperado chumbo pela maioria socialista que alimenta este Governo e os interesses que este sustenta, os interesses dos grandes, daqueles que se enchem de lucros à custa daqueles que cada vez têm mais dificuldade, daqueles que contam os cêntimos, cêntimos esses que para muitos já não chegam para o pão até fim do mês.

Mas, independentemente do resultado da votação, ficaram dois dados interessantes:

Primeiro - as alterações às Leis Laborais são para benefeciar os mesmos, os "Grandes amigalhaços" do Sr. "Porreiro pá" que acumulam lucros atrás de lucros, milhões atrás de milhões, mais valias atrás de mais valias e vomitam arrogância, ostentação e prepotência, fazendo-se sempre passar por muito preocupados pela necessidade de modernidade e competitividade do País, País esse que começa neles próprios e termina no umbigo deles próprios!

Segundo - O PSD e o CDS-PP abstiveram-se porque não concordaram com os fundamentos da moção apresentada pelo PCP. E não concordaram, porque estão de acordo com Leis que sirvam os "Grandes amigalhaços" do Sr. "Porreiro pá", que são, também, os seus "Grandes amigalhaços". E isto foi, talvez, o melhor do dia! Percebe-se, assim, que o Sr. "Porreiro pá" e o seu Partido, os Srs. "Talvez não tão porreiros pá" do PSD e do CDS são todos, igualmente, amigos dos "Grandes amigalhaços" que acumulam lucros atrás de lucros, milhões atrás de milhões, mais valias atrás de mais valias, à custa das dificuldades e contar de cêntimos de milhares e milhares de portugueses.

São, no fundo, 3 ramos da mesma árvore (certamente, um eucalipto que tem como objectivo secar tudo à sua volta)

Mas, para todos eles ("Grandes amigalhaços", Srs. "Porreiro Pá" e Srs. "Talvez não tão porreiros pá"), a verdadeira moção de censura ainda está por vir e será aquela que todos aqueles que continuam a contar cêntimos (e cada vez contam menos cêntimos) lhes farão!


terça-feira, 6 de maio de 2008

A grandeza subjectiva!












Até na sua grandeza...












... e beleza...












...não consegue evitar...









... ser engolido

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Pensamentos

Passo pelas ruas
esquecido do que me envolve,
não reparo nas caras
de quem passa por perto,
não sei quem são e, também,
de momento, pouco me dizem...
Passo pelas ruas
perdido nos pensamentos,
desencontrado de mim mesmo,
mas à procura... não sei...
Procuro o quê?...
Procurar-me-ei a mim?... ou a ti?...
Talvez procure em mim porque te perdi!
Não sei se terei a resposta,
ou se a encontrarei...
Nem sei se ela está em mim...
Talvez esteja em ti...
Ou poderá não estar em ninguém!
Passo pelas ruas e penso:
Voltarei a encontrar-te?
Passo pelas ruas e percebo:
preciso encontrar-me...