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quinta-feira, 30 de abril de 2009

"Os Sem Terra"




Pintura de Miguel Westerberg

25 de Abril 35 anos depois - Caminho da História da Libertação do Homem

Ficaram aqui, em “Há sempre alguém...”, nos últimos quinze dias algumas imagens, músicas, palavras, acontecimentos que marcaram, há 35 anos, a história do País!

Passaram 35 anos da Revolução dos Cravos, Revolução que trouxe liberdade e derrubou o Fascismo, que permitiu transformar o sonho em realidade! Nas semanas, meses que se seguiram muitos passos se deram, como Chico Buarque disse na segunda versão de “Tanto Mar”: “... foi bonita a festa, pá!...”... E foi bonita! Uma semana depois perto de 1 milhão de pessoas comemorava o 1º de Maio, dia do trabalhador, em Liberdade. Nas semanas seguintes, constituíram-se sindicatos, comissões de moradores, colectividades, Associações, Grupos desportivos e culturais! Cantaram-se as músicas antes censuradas. Declamaram-se os poemas antes cortados pelo lápis azul! Constituíram-se os Partidos! O PCP até então na clandestinidade foi o primeiro a tornar-se legal! Ocuparam-se casas desocupadas para dar habitação a quem não a tinha ou vivia em barracas! Os Agricultores ocuparam terras até então improdutivas e votadas ao abandono por latifundiários gananciosos. Terras que foram germinadas! A dependência alimentar do País face ao estrangeiro diminuiu progressivamente! Nacionalizou-se a banca e os sectores chave da economia! Estabeleceu-se o salário mínimo nacional pela primeira vez! Atribuíram-se reformas aos reformados, pensionistas e idosos que até então não as tinham. Libertou-se os povos das colónias parando-se com a Guerra Colonial sangrenta que matou e estropiou milhares de Portugueses, Angolanos, Moçambicanos e Guineenses! Acabou-se com a censura!

Foi uma festa bonita!

Mas como Chico Buarque disse na segunda versão de “Tanto Mar”: “...já murcharam tua festa, pá!...” E, murcharam mesmo, passado um ano e alguns meses concretizou-se um contra golpe na revolução a 25 de Novembro!

E desde aí a ofensiva contra as conquistas de 25 de Abril não mais parou! Destruíu-se a agricultura, parte das terras servem hoje para capitalistas passearem aos fins de semana ou jogar golfe, a dependência alimentar de Portugal atingiu valores nunca antes atingidos! Privatizou-se os bancos para que os seus donos se envolvessem em negócios especulativos e pouco claros que já levou a uma crise sem precedentes no sistema financeiro, paga pelos impostos de quem trabalha!

Mas, 35 anos depois, pode-se dizer que parte das conquistas se mantêm! Salário mínimo, Reformas, liberdade de organização, Libertação dos povos das colónias! E como Buarque diz “... mas certamente esqueceram alguma semente nalgum canto de jardim...”. A semente da revolução de Abril irá germinar no caminho da História. História da libertação do homem de todas as formas de exploração e opressão. O Caminho da história que iremos percorrer como outros o percorreram no passado! Aqueles que fizeram Abril permitiram-me nascer mais à frente no caminho! O Caminho prosseguirá, muitos morrerão sem chegar ao fim dele, mas permitirão, certamente, às gerações vindouras nascer mais à frente no Caminho da História da Libertação do homem!

Caminhar pelos ideais de Abril e pela libertação do homem de todas as formas de exploração e opressão é o objectivo de “Há Sempre Alguém...”

quarta-feira, 29 de abril de 2009

"Filhos da Madrugada"

"Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca."

José Afonso


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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Tanto Mar - 2ª Versão 1978

"Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim"

Chico Buarque


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domingo, 26 de abril de 2009

"As portas que Abril abriu"



"Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.


Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril

fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram

das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!"


Ary dos Santos


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Tanto Mar - 1ª Versão - 1975

"Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim"

Chico Buarque

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sábado, 25 de abril de 2009

O fim do fascismo

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A PIDE dispara contra o povo

Uma força da GNR dispõe-se ao longo da Rua Nova da Trindade, até junto da retaguarda das forças de Cavalaria que cercam o Carmo.
Manifestações populares hostis à GNR.
A coluna do RC 3, que tinha como missão libertar os militares presos na Trafaria, chega à Ponte sobre o Tejo. Do Posto de Comando recebe, porém outro objectivo: acorrer em defesa das forças de Salgueiro Maia, a fim de encurralar a GNR e a Polícia de Choque entre dois fogos.
Centenas de pessoas descem a Rua António Maria Cardoso, entoando o hino nacional, e aproximando-se da sede da PIDE/DGS, de cujas janelas são disparados tiros. Cinco feridos, alguns com gravidade.

O Povo Sai à rua!














A
s foas concentradas no Terreiro do Paço distribuem-se: uma parte em direcção ao Quartel General da Legião Portuguesa, na Penha de França, comandada por Jaime Neves e formada por forças aderentes do RC 7, RI 2 e RI 1. Outra parte, comandada por Salgueiro Maia, e formada pelas forças da EPC, em direcção ao Carmo. A marcha da coluna militar até ao Carmo, é acompanhada por impressionante número de pessoas que gritam: «Vitória! Vitória!», «Fim à guerra colonial!», «Abaixo o fascismo!» e « Liberdade! Liberdade!».
Salgueiro Maia dispõe as suas forças em posição de cerco ao Quartel do Carmo. Constituem-nas militares do RC 7, da EPC e da Região Militar de Tomar. As portas e janelas estão fechadas. Muito povo dificilmente contido nas ruas vizinhas, apoia os militares revoltosos. Vêem-se cravos vermelhos nos canos de muitas espingardas oferecidos aos soldados por populares.

O ultimo suspiro dos fascistas

Um avião de pára-quedistas sobrevoa o Terreiro do Paço. Entretanto, na outra margem do Tejo, dois aviões cruzam sinais de fumo. São fechados os acessos ao Terreiro do Paço e barricadas as ruas Augusta, do Ouro e da Prata.
Detenção do General Louro de Sousa, quartel-mestre-general, à entrada do respectivo serviço.
Chegada ao Agrupamento Norte a Peniche. A Pide-DGS mostra-se disposta a resistir.

Mais posições tomadas pelo MFA

Pelas 7 horas da manhã, de há 35 anos, as forças do MFA tomavam novas posições, tudo corria como planeado, Uma coluna chega ao forte de Peniche, objectivo tomá-lo e libertar os presos políticos!
A Coluna de artilharia chega ao Cristo-Rei para servir de retaguarda à ocupação do Terreiro do Paço e proteger eventuais respostas da Marinha, a mando do Governo Fascista, utilizando o Rio Tejo.
No Porto uma coluna de artilharia pesada de Gaia toma posição junto da ponte da Arrábida!
Estava a chegar ao fim o Regime Fascista... Começava a manhã da liberdade!

Tomada do Terreiro do Paço

Há 35 anos por esta hora o MFA (movimento das forças armadas) ocupa o Terreiro do Paço, O Banco de Portugal e a Rádio Marconi, Salgueiro Maia comanda as unidades!
Os Membros do Governo Fascista fogem para o regimento lançeiros 2 e tentam organizar uma força para continuar a reprimir a liberdade!

Comunicado do Posto de Comando do MFA

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A Revolução está na rua!!

Movimentações entre as 0.30 e as 4.45

Entre as 0.30 e as 3 horas
Inicia a marcha uma força da Escola Prática de Artilharia com destino ao Cristo-Rei em Almada.
Da Escola Prática de Infantaria sai uma força comandada por Rui Rodrigues para ocupar o Aeroporto de Lisboa.
Da Escola Prática de Cavalaria sai uma força comandada por Salgueiro Maia com o objectivo de ocupar o Terreiro do Paço.
De Stª Margarida o pessoal das Companhias de Caçadores 4241 e 4246 prepara-se para ocupar as antenas da Emissora Nacional situadas em Porto Alto.
De Tomar sai Hugo dos Santos para constituir um grupo de comandos destinado a neutralizar o 2º Comandante de Cavalaria 7, Ferrand de Almeida
De Viseu sai uma Companhia que se juntará a outras forças na Figueira da Foz.
Do Campo de Tiro da Serra da Carregueira saí um grupo de homens comandado por Oliveira Pimentel e Frederico Morais, com a missão de tomar os estúdios da Emissora Nacional na rua do Quelhas.
Movimentações ainda em unidades da Região Militar de Lisboa: Batalhão de Caçadores 5, Batalhão de Cavalaria 7, Escola Prática de Administração Militar (com a constituição de um grupo de homens comandados por Teófilo Bento, que tem por objectivo assaltar as instalações da Televisão, ao Lumiar), Escola Prática de Engenharia (que deve fornecer munições e juntar-se ás forças vindas de Santa Margarida.

Pelas 3 horas

Sacramento Marques, Comandante do CIOE de Lamego dá ordem de saída a uma companhia de comandos, sob as ordens de Delgado da Fonseca. Missão: fazer o itinerário Lamego-Porto e ocupar a delegação da PIDE/DGS na capital do Norte.
Carlos Azeredo, Eurico Corvacho, Albuquerque e Boaventura Ferreira penetram no Quartel General da Região Militar do Porto e transformam-no em Posto de Comando do Movimento no Norte do País.
Ocupação quase simultânea de pontos vitais da capital. Começam a ser enviadas para o Posto de Comando as confirmações em código:
Rádio Televisão Portuguesa, Teófilo Bento informa: "Daqui é maior de Lima Cinco. Acabamos de tomar Mónaco sem incidentes".
Rádio Club Português, Santos Coelho informa: "Aqui Grupo Dez. Informo México conquistado sem incidentes".
Emissora Nacional, Frederico Morais informa: "Daqui maior de Lima Dezoito. Informo ocupámos Tóquio sem qualquer incidente".
Quartel-General, Cardoso Fontão informa; "Canadá foi ocupado sem incidentes".

Pelas 3.30 Horas

Santos Júnior, Comandante da PSP do Porto, telefona para o Comando da GNR informando que o QG da Região Militar foi tomado por um grupo de oficiais revoltosos. As ordens não se fazem esperar: prevenção rigorosa. Contactos entre GNR e PSP e Regimento de Cavalaria 6 para libertar o Quartel General. Arriscado Nunes e Martins Rodrigues, Comandante e 2º Comandante do RC6, recusam colaborar e aderem ao Movimento. Contactados Rui Mendonça e Carneiro de Magalhães, respectivamente do Regimento de Infantaria 8 e do Regimento de Infantaria 13, recusam cumprir as ordens dos comandantes.

Pelas 4 horas

Ocupação do Aeroporto de Lisboa. Costa Martins ordena a emissão de instruções que interditam o espaço aéreo português e comunica para o Posto de Comando: "Aqui maior de Lima Dois. Informo Nova Yorque está ocupado e está sob nosso controlo".




Primeiras movimentações iniciam-se com 2ª Senha

Na rádio renascença são ditos os primeiros versos de "Grândola Vila morena". A segunda senha tocava. Os militares de Abril em vários pontos do País iniciavam as movimentações com vista ao derrube do regime Fascista que há quase 5 décadas oprimia o povo português!
Há trinta e cinco anos a noite fascista começava a despontar na madrugada dos cravos!

"Grândola Vila Morena" - 2ª Senha

"Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena

Dentro de ti, ó cidade


Dentro de ti, ó cidade

O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade

Grândola, vila morena


Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade


Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena


À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade"

José Afonso

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Começam os preparativos de alguns capitães

Às vinte e duas horas e cinquenta e cinco minutos, a Estação dos Emissores Associados de Lisboa transmite o primeiro sinal combinado: " Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74: E depois do Adeus". Era o sinal para a preparação da saída dos quartéis. A escolha da música que tinha ido ao Festival da canção teve haver com a necessidade de que a senha não levantasse suspeitas.
Logo após a audição do primeiro sinal começam os preparativos em várias unidades: na Escola Prática de Artilharia são presos o Comandante e o 2º Comandante e são reunidos os oficiais milicianos, os sargentos, os furriéis e os cabos milicianos, a quem os oficiais do Movimento expõem a situação. Aderem quase unanimemente os oficiais, furriéis e cabos milicianos, e recusam a sua adesão os sargentos do Quadro Permanente, que são presos na totalidade.
Na Escola Prática de Infantaria todo o pessoal recolhe à unidade, interrompendo os exercícios finais de campo, por forma a iniciarem os preparativos.
Na Escola Prática de Administração Militar os oficiais do Quadro Permanente dirigem-se para a unidade e iniciam os seus preparativos.
No Batalhão de Caçadores 5 Cardoso Fontão reúne as poucas dezenas de oficiais presentes que manifestam adesão unânime. Dele sairão duas companhias: a primeira tem como objectivo o Quartel General e a segunda, o cerco e a defesa da zona do Rádio Club Português.
O pessoal do " 10º Grupo de Comandos", cuja missão é o assalto ao Rádio Club Português, ouve o sinal e prepara-se para cumprir a missão que permitirá levar a voz do Movimento a todo o país.
Costa Martins dirige-se para o Aérodromo Base nº1, na Portela de Sacavém. Está incumbido de controlar o Aeroporto e tráfego aéreo.

"E Depois do Adeus" - 1ª Senha

"Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós."

Letra de José Niza, Música de José Calvário, Interpretação de Paulo de Carvalho


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quarta-feira, 22 de abril de 2009

"O que faz falta"

"Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta"

José Afonso


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terça-feira, 21 de abril de 2009

Dias Coelho - O Assassinio do pintor e revolucionário

Foi a 19 de Dezembro de 1961, numa rua de Lisboa, que 5 Pides perseguiram, cercaram e depois dipararam 2 tiros à queima roupa contra Dias Coelho o Pintor, que abandonou a sua vida para se dedicar à luta clandestina, nas fileiras do PCP, pela Liberdade a Democracia e a libertação do povo português da Exploração!

Tombava nesse dia pelas mãos da "Lei assassina" do regime que durante decadas amordaçou um país inteiro!

José Afonso escreve em sua homenagem "A morte saiu à rua!" Fica o hino em homenagem a uma das muitas vitimas do fascismo.


Gravura de José Dias Coelho, sobre o assassinato, às mãos da GNR, de Catarina Eufémia, trabalhadora-rural, durante uma greve em Baleizão, 7 anos antes. Catarina Eufémia que estava grávida quando é assassinada!
Dias Coelho teria o mesmo fim que retrata na gravura!

"A Morte saiu à rua"

"A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação"

José Afonso


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segunda-feira, 20 de abril de 2009

As águas do Tejo - 35 anos depois

Cantava adriano ao Tejo pedindo-lhe: "lava bancos e empresas dos comedores de dinheiro, que dos salários de tristeza arrecandam lucro inteiro" e há 35 anos as águas do Tejo-Povo lavou-os!
O retrato de Portugal antes do 25 de Abril é este miséria de milhões de pessoas para manter a riqueza de meia dúzia de famílias intimamente ligadas ao regime fascistas!
35 anos depois temos meia dúzia de grupos económicos a arrecadar milhões e milhões de lucros, a pagar milhares de € a administradores mais ou menos corruptos e temos milhares de pessoas a ficarem sem emprego e sem meios de sustentarem as famílias, milhões de portugueses a cairem irremediávelmente na pobreza!
35 anos depois da revolução de Abril as águas do Tejo-Povo precisam lavar novamente a cidade e o País da fome, da miséria, do crime, e sobretudo dos comedores do dinheiro! E eles, os comedores de dinheiro, tremem só de pensar que as àguas de novo se soltem!

"Tejo que levas as águas"

«Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar.

Lava-a de crimes e espantos
de roubos fomes terror
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amor.

Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro.


Lava palácios vivendas
casebres bairros de lata
leva negócios e rendas

que a uns farta a outros mata.

Leva nas águas as grades

de aço e silêncio forjadas

deixa soltar-se a verdade

das bocas amordaçadas.


Lava avenidas de vícios
vielas e amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais.

Afoga empenhos favores
vãs glórias ocas palmas

leva o poder de uns senhores

que compram corpos e almas.


Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo

rostos corpos destroçados

lava-os com sal e iodo.

Tejo que levas as águas

correndo de par em par

lava a cidade de mágoas

leva as mágoas para o mar».

Poema de Manuel de Oliveira
Música de Adriano Correia de Oliveira


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domingo, 19 de abril de 2009

PIDE/DGS Os vampiros à solta

Há 35 anos, e durante quase 50 a PIDE/DGS matou, torturou, perseguiu.
A Polícia politica que levava quem "naquela casa havia". Entrava pelas noites frias nas casas e os "Vampiros" prendiam e torturavam todos os que lhes "trancassem as portas", todos os que se opunham ao poder fascista!
Durante quase 50 anos o saldo da acção dos vampiros saldou-se por centenas de mortos, muitos milhares de torturados!
Trinta e cinco anos depois da Revolução que derrubou o Fascismo convém lembrar porque há quem queira fazer esquecer!

"Vampiros"

"No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada"

José Afonso



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sábado, 18 de abril de 2009

"Trova do Vento que Passa"

"Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
O vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não."

Excerto do poema de Manuel Alegre Trova do Vento que passa cantado por Adriano Correia de Oliveira


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sexta-feira, 17 de abril de 2009

A Guerra colonial deixou meninas dos olhos tristes

"Menina dos olhos tristes" música do Zeca (José Carlos Afonso) retratava a tristeza que se abatia sobre as famílias dos soldados que iam para a guerra colonial e por lá morriam - "... vem numa caixa de pinho..."!
35 anos depois da revolução do 25 de Abril é bom não esquecer que cerca de 10 mil soldados portugueses por lá morreram, bem como milhares e milhares de homens e mulheres dos povos que só após o 25 de Abril de 1974 puderam ser livres!
Guerra colonial que apenas serviu para limitar as liberdades aos povos das ex-colonias e ao povo português!

"Menina dos Olhos Tristes"

"Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar"

Adriano Correia de Oliveira


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quarta-feira, 15 de abril de 2009

35 Anos depois...

Trinta e cinco anos depois da revolução dos cravos, há que lembrar o que foi!
Para que não se esqueça, que existiu Abril, um Abril que tem levado machadadas... e que precisa de ser retomado e concretizado!
Sem grandes pretensões de fazer uma análise exaustiva ao que era o Portugal do antes de 25 de Abril de 1974 e o que a revolução trouxe, "há sempre alguém..." recordará aqui nos próximos 15 dias, imagens, sons e acontecimentos do antes e da Revolução!

terça-feira, 14 de abril de 2009

"Para o meu coração..."

"Para o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a sua alma.

És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu acordei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma."

Pablo Neruda, poema do livro "Vinte Poemas
de amor e uma canção desesperada"

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O cão do nosso orgulho ou a vergonha da nossa mediocridade

Foi ontem a ver o noticiário da TVI, passe a publicidade, que me apercebi de um acontecimento, que, para a TVI, era extraordinário, digno de notícia... E o grande acontecimento era: O fim da crise? Não!!! A diminuição do desemprego? Não!!! A melhoria das condições de vida dos portugueses? Não!!!... Era... A grande decisão... Do Obama, presidente dos Estados Unidos... E qual foi a decisão? Aumento geral dos salários para os trabalhadores americanos? Não!!!... A grande decisão foi... tarararararara... Batam os tambores!!!!.... tararara. Obama decidiu qual vai ser.... tarararara.... O cão da casa branca!!!! Isso mesmo... o cão da casa branca!!!!

E facto, de Obama escolher o canídeo, que presumo não ser portador de pulgas, deixou os jornalistas portugueses em pulgas, não as parasitas, mas as psicológicas, aquelas que deixam as pessoas inquietas!

O que animou e excitou os jornalistas é o facto de o canídeo ser de raça portuguesa! Magnífico motivo de orgulho nacional ter um cão na casa branca! Poderá o cão usar dos seus contactos para resolver os problemas do nosso país? Só um jornalismo medíocre acredita nisso! Mas é o que temos!

O Hipócrita

Silva Lopes, Ex- Ministro das finanças tem vindo a defender como solução para a situação económica o congelamento dos salários. Curioso, para quem com 77 anos, trabalhou 4 meses, em 2008, como administrador do Montepio Geral, e recebeu 410 mil €?!? sim 410 mil euros!!!! Aquilo que uma parte dos trabalhadores portugueses demora 80 de duro trabalho a ganhar, os mesmos portugueses para quem o Sr. Silva Lopes defende que se congele os salários!
É preciso não ter vergonha nenhuma, nem respeito pelos outros! Os 77 anos e a eventual limitação de raciocínio provocada pela idade não lhe desculpa a imoralidade!

domingo, 12 de abril de 2009

Na sua voz ecoavam gritos roucos

"(...) E abria todo o mundo ferroviário
com a sua chave e a sua lira sarmentosa,
e caminhava sobre a espuma da pátria
cheio de pequenos pacotes estrelados,
ele, a árvore do cobre, regava
cada pequeno trevo que surgia,
o crime horrível, os incêndios,
e o ramo dos rios tutelares.
Na sua voz ecoavam gritos roucos
perdidos na noite dos raptos,
transportava sinos torrenciais
que à noite reunia no chapéu,
e recolhia no casaco esfarrapado
as transbordantes lágrimas do povo.
Atravessava as encruzilhadas arenosas,
a funda extensão do salitre,
as ásperas alturas da costa,
construindo o romance prego a prego,
compondo o verso telha a telha:
deixando nele a mancha das mãos
e as marcas da caligrafia. (...)"

Excerto de "Abraham Jesús Brito (Poeta Popular" in "Canto Geral" Pablo Neruda

sábado, 11 de abril de 2009

"Lavrador de Café"


Pintura de Cândido Portinari

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Generosidade da imaginação


“(...) Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprimindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens de becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventado chaves para abrir as portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram(...)”

Excerto de "A Viagem do Elefante" de José Saramago

quinta-feira, 9 de abril de 2009

"Cantar da Emigração"

"Este parte, aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão

Tens em troca órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará

Este parte, aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão"

Rosália de Castro / José Niza
Adriano Correia de Oliveira


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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Cantei para aqueles que não tinham voz!

"(...) - Cantei naqueles dias contra o inferno,
contra as afiadas línguas da cobiça,
contra o ouro empapado na tortura,
contra a mão que empunhava o chicote,
contra os que dirigem as trevas.

- Cada rosa abrigava um morto nas suas raízes.
A luz, a noite, o céu, cobriam-se de pranto,
os olhos desviavam-se ao ver as mãos feridas
e a minha voz era a única que enchia o silêncio.

- Eu quis que da condição humana nos libertássemos,
acreditava que o caminho passava pelo homem
e que daí tinha de surgir o nosso destino.
Cantei para aqueles que não tinham voz.
A minha voz bateu às portas até então fechadas
para que, combatendo, a Liberdade entrasse. (...)"

Excerto do Poema "Castro Alves do Brasil" In "Canto Geral" de Pablo Neruda

Viagens!

(...) Quando o cérebro divaga, quando nos arrebata nas asas do devaneio, nem damos pelas distâncias percorridas, sobretudo quando os pés que nos levam não são nossos(...)”


Excerto de "Viagem do Elefante" de José Saramago

terça-feira, 7 de abril de 2009

Rosto humano de conteúdo desumano!

Hoje, quando me deparei com um cartaz de um novo partido, o MEP, parei um segundo a olhar para a frase que dizia: "Por uma Europa de rosto humano". A dita frase encontrava-se por baixo do rosto da jornalista Laurinda Alves que presumi ser a candidata do MEP. E primeiro fiquei intrigado pela relação entre o rosto da Laurinda e a frase... Estaria o MEP a querer dizer que os outros rostos dos outros partidos não são humanos? Mas logo afastei a ideia, já que nem canideos nem felinos podem ser candidatos, essa façanha são os humanos os únicos animais a quem é permitido realizar!
Poderia ainda fazer a consideração se não seríamos, no caso de alguns destes humanos, mais bem servidos pelos outros animais... Mas é melhor não adiantar aqui essa filosofia!
Afastada a ideia, fui ler o que dizia o programa do referido partido, e então descobri o que queria dizer rosto humano! Quer dizer "... é possível integrar a construção europeia, tendo em vista a convergência entre desenvolvimento económico e coesão social....", como fica bem dito desta forma.
Mas, perguntei-me, como isso se faz? E no conteúdo do programa, lá vem clara, descarada, sem nenhuma vergonha a resposta:
"... para enfrentar estes desafios é essencial a entrada em vigor do tratado de Lisboa, com a rápida conclusão do processo de ratificação..." - chama-se a isto o rosto humano!!! Os povos de França, Holanda e Irlanda votaram em referendo não, e estes" humanistas" consideram-nos desumanos e vai daí, vamos apressar a ratificação daquilo que os (des)humanos não querem!
Mas há mais, e vai daí a primeira resposta para combater a crise proposta pelo MET é: "...que a Política Agrícola Comum (PAC) assim como a Política Comum de Pescas, deverão prosseguir o seu caminho rumo a um cariz mais orientado para o mercado,..." as tais políticas que destruíram a agricultura portuguesa e as pescas? E que agora já, muitos dos que as defendiam, dizem que temos de regressar à produção agrícola devido à dependência alimentar? Fantástica humanidade esta do MEP!!!!
Bem, mas também o que se esperava de um Partido que tem como rosto humano Laurinda Alves, a mesma que defende que a Lei devia considerar criminosas as mulheres que praticam a IVG? Lá está, é o rosto humano de conteúdo desumano!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Rio sem nome

Rio que caminhas por entre os vales,
longe das minha terras áridas
como uma águia que nos ares
sobrevoa sem se aproximar das presas.

Que a chuva te aumente a adrenalina,
como a fome a faz à ave de rapina,
e que te faça transbordar no meio da neblina
galgando as terras em surdina!

Rio que te chamas Tejo, Minho,
Guadiana, Douro, Danúbio,
Amazonas, Parnaíba, Nilo,
Paraguai ou Sado

Rio sem nome... Rio da minha alegria
trás as tuas águas, invade as minhas margens,
alaga os meus caminhos, molha o meu dia,
transforma a minha vida, altera, aos meus olhos, as paisagens!

No teu caminho que nenhuma barragem
te pare, que nenhuma avalanche inesperada
te desvie, que te deixem
caminhar e invadir a minha vida!

Quero as tuas águas nas minhas margens!
Quero o teu cheiro nas minhas terras!
Quero navegar em ti nas minhas viagens!
Quero me lavar nas tuas águas!

"O povo vitorioso"

"O meu coração está nesta luta.
O meu povo vencerá. Todos os povos
vencerão, um por um.

Estas dores
serão espremidas como lenços até
enxugar tantas lágrimas vertidas
nas galerias do deserto, nos túmulos,
nos degraus do martírio humano.
Mas está próximo o tempo da vitória.
Que o ódio sirva para que não tremam
as mãos do castigo,
que a hora
chegue ao seu horário no instante puro
e o povo encha as ruas vazias
com suas frescas e firmes dimensões.

Eis aqui a minha ternura para então.
Vós conhecei-la. Não tenho outra bandeira."

Pablo Neruda in "Canto Geral"